Intertexto: The following e Sócrates.

Quando somos crianças, muitas vezes pensamos "isso nunca vai acontecer", "isso não é possível","isso nunca aconteceria". Quando crescemos, cultivamos isso, seja no âmbito pessoal ou profissional com "nunca me envolveria com tal tipo de pessoa", "nunca faria tal coisa", etc.
Por exemplo, quando eu era criança, nunca me imaginaria sem meus pais. E ano passado aconteceu.
O momento político brasileiro também está indo para uma direção que até alguns anos seria estranha e impensável: um candidato de extrema direita, cujas frases mais leves são "dei uma fraquejada e fiz uma filha mulher", "tem de apanhar pra parar de ser viado" está quase garantido na presidência.
Ontem vendo a série The following, refleti sobre esses momentos que a gente olha apenas "não é possível." Tudo é possível. Um candidato como Bolsonaro ganhar é possível, assim como um serial killer ter mais de cem seguidores que o ajudam a cometer crimes também.
A série também me fez refletir, dentro desse contexto, da necessidade do herói e do pertencimento. Somos desesperados desde que nascemos para pertencer a uma tribo. Não sabemos lidar com frustrações e problemas e buscamos quem supostamente possa nos guiar. O ser humano, de uma forma geral, não sabe lidar sozinho com as coisas. A pergunta básica "quem sou eu?" ou a máxima "Conhece-te a ti mesmo" de Sócrates parecem os piores enigmas já postos. E convenhamos, transferir responsabilidades para os outros é sempre mais fácil. O outro deve me dizer o que devo fazer, como crianças esperando a ordem se pode ou não usar caneta. As pessoas não conseguem pensar fora da situação (assim como eu também não, muitas vezes). É um emaranhado de coisas tão complexo que ninguém sabe resolver. Ou não quer resolver. The following tem muito a oferecer no sentido de "cuidado com o que ouve". Temos de um lado um vilão sedutor, inteligente (especialista em Edgar Allan Poe!), envolvente com seu sotaque britânico que fala EXATAMENTE o que as pessoas querem ouvir; e um policial marrudo, antipático e monossilábico do outro lado, que apenas em última instância pode ser carismático. Quantas vezes trocamos um sábio conselho de alguém ríspido por um sorriso confortante de um belo aproveitador e manipulador?
Assista The following. E veja que, definitivamente, nada é impossível.



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