Fatalidades, destinos e clichês.

“There are few hours in life more agreeable than the hour dedicated to the ceremony known as afternoon tea.” 

The portrait of a lady, de Henry James está aqui, do meu lado na cama. É um livro que me causa medo: aquele medo de achar em uma história fictícia palavras que retratem a vida "real". Lembro-me de ter estudado muito rapidamente o romance na faculdade de Letras. Quando o professor terminou de contar a história, a sala ficou primeiramente em silêncio, e depois questionou de forma perplexa "como assim?". Basicamente, é a saga da lady chamada Isabel: ela tem tudo o que uma sociedade como a nossa preza: dinheiro, homens a seus pés, propriedades e uma inteligência/rapidez de raciocínio inacreditável.
Realizei aquela pesquisa básica sobre a obra antes de ler e "conformista" é a palavra-chave número um quando buscamos algo do romance na net. Em tempos de feminismo, talvez o termo soe como um ultraje. Mas vejo  que dentro da história conformismo é diferente de derrotismo. Vivemos em um mundo em que somos impulsionados a buscar o mais, a buscar sempre o que não temos (vide a história do "o não você já tem"). Quando não conseguimos, as frases clichês de auto-superação bombam como se tudo não mais dependesse de você. Há uma inversão: antes de conseguir e se você consegue, o negócio depende de você. Mas se não conseguir, o mundo é mais tolerante e começa a entender que não é bem assim.  A moça do livro tinha tudo para ser aquela protagonista feminina, equivalente a uma Lady Chatterley. Pretendentes a rodo, viagens, empregados...e, bingo: deu merda!
Se quando lemos "Les liaisons dangereuses" esperamos que Cecília seja automaticamente seduzida (pois em sua primeira carta já vemos toda a sua inocência e sensibilidade), aqui o clichê é  menos esperado. Quem diria que aquela super power femme Isabel Archer iria se casar JUSTAMENTE com o indivíduo que iria lhe trazer o infortúnio eterno: um casamento por interesse e sem amor. Quantas vezes, no entanto, pensamos nisso mesmo: "por que justo comigo?". Sempre vamos pensar nisso. Pessoas morrem todos os dias, em todos os lugares. Mas por que JUSTAMENTE meu pai tinha que morrer em 2017? Tem resposta que me satisfaça?? Claro que não. E sempre vamos nos perguntar:
Por que justo hoje que não tinha feito aquela aula o coordenador resolveu assistir minha aula? Por que justo hoje que estava com dor de cabeça os alunos estavam atacados? Por que justo agora e comigo? É a vida seguindo o fluxo à la Édipo rei.
Ouvi certa vez que as histórias contadas em literatura são quase sempre do mesmo plot (vingança, retorno, viagem, triângulo amoroso, etc). James talvez tenha sido super genial ao quebrar o clichê da mocinha. Ninguém é cem por cento inocente como Cécile; ninguém é cem por cento mal como a Marquise. Os piores destinos também existem para as pessoas sensatas como Isabel.
Os personagens em Laclos são muito bem desenhados, na medida exata do maniqueísmo: quem é inocente, irrita de tanta inocência (Cécile); quem é mal, transborda maldade (Merteuil); quem é mãe, faz tudo o que se espera de uma mãe; até o vilão (Valmont) que adorava brincar com o coração das mulheres, acaba se apaixonado pela "prude" Madame de Tourvel; o ápice se dá no duelo e na morte da senhora casada e do diabólico Valmont. Em Henry James, tudo fica como está: o amor não aparece do nada,  a mocinha não se rebela e decide fugir, não há mortes para salvar o pescoço de ninguém.

Spoiler ou semi-spolier: li a última página do livro no dia em que meu pai foi para a UTI. Dali a dois dias ele morreu. Esta última página fala lindamente sobre lembranças, lugares e objetos: o banco onde Isabel havia se sentado anos antes e onde estava agora sentada e dentro de uma situação de imobilidade. Pensamentos mil. E tem gente que não entende por que ler é importante. Isso nos dá um sentido pra vida que chega a ser absurdo. Só posso concluir que quem não gosta de ler já está morto por dentro.

Pontos para comparar com Liaisons Dangereuses:

A manipulação maquinada por um casal de amantes (ou ex-amantes)
A destruição de um amor pueril-Cécile e Danceny x Isabel e Warburton
A não-solução final.
Fatalismo à la Flaubert
O desafio de ser mulher em uma sociedade dez mil vezes mais patriarcal do que a nossa e se ver como parte daquilo.

Já estou apaixonada: “Things are always different than what they might be...If you wait for them to change, you will never do anything.”




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dia do Beijo.

Pais na estante.

Experiências literárias.