O operário disse: Não!
Estou cumprindo meu estágio para concluir minha graduação de Filosofia, iniciada em 2009.
Optei por realizá-lo numa escola pública. Meu sonho é trabalhar numa escola pública. Sim, é pelo clichê da mudança. pelo clichê de despertar a consciência política dos alunos e todo aquele blá blá blá. Eu acredito nisso porque estou vendo acontecer. Os alunos ficam fissurados nas aulas de sociologia principalmente.
Na última aula, analisamos o poema "Operário em construção", de Vinícius de Moraes.
E me vi muito ali.
"E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução."
Trabalhei por sete anos como professora de inglês na escola Wizard.
Ali era meu mundo. Costumava dizer sempre que mesmo ganhando pouco, eu era muito feliz ali. Que poderiam em oferecer quanto fosse em outra escola, eu não "abandonaria meus princípios". Sete anos. Meus amigos me dizem para eu ver esse período como experiencia. Eu simplesmente não consigo. Essa foi para mim a maior perda de tempo da minha vida. Nunca vou em perdoar por todos esses anos. Anos de medo e nenhum reconhecimento. Nenhum.
Escolas de idiomas costumam trabalhar com hora /aula. Na minha cidade, nessa escola começava-se com oito reais. Eu, com meus virginais dezoito anos, achei aquilo uma fortuna. Meu primeiro salario foi de 90 reais (eu era muito bonitinha, né?).
Com esse emprego veio a possibilidade da faculdade. Escolhi Filosofia.
E aí você começa a entender como o mudo funciona. E começa também a ver que enquanto ganha oito reais de hora/aula, um aluno seu paga 200 reais de material. Apenas um aluno. E a escola tinha uns 300 alunos. Mas, gente? isso era de material. Fora as mensalidades, de no mínimo 200 reais.
E depois de um tempo, você começa a ser cobrado pro cosias que não são sua responsabilidade. Lembro até hoje de uma reunião em que minha ex-patroa disse: "Eu quero qualidade. Quero professores gabaritados, quero ver o que vocês fazem fora daqui para estudar." Oi? Sério? Como estudar, se faculdade geralmente é a à noite e você, querida patroa, quase tinha um infarto se a gente por ventura ficasse doente e precisasse ir embora nesse período? E ok, suponhamos que você fosse super legal e compreensiva e deixasse a gente estudar. Meus últimos salários não ultrapassaram 400 reais. E eu dando aulas de inglês e FRANCÊS. Sim, francês. Vocês sabem quanto é um professor de francês por aí? No minimo 60 reais de hora/aula se o cara for bonzinho. Eu ganhando dez por hora. Então a culpa era minha se eu não estudava. Aham. Com certeza.
Mas o pior foi quando comecei a estudar teorias sobre ensino de línguas. Vi que trabalhava com algo em que não acreditava. Nem um pouco. Fui me informando sobre o assunto e foi um daqueles momentos que você pára e diz para você mesmo "Que mentira estou vivendo". Foi a receita para o desastre. Engordei muito nesse período. Chorava para ir trabalhar. Todos os dias. Lembro de um dia em que iria ter um jogo de futebol e iria vê-lo na casa dos meus amigos. Uma amiga me ligou e eu estava sentada num banco na praça, havia umas duas horas, só olhando para o nada. Estava num intervalo e queria ver o capeta mas não queria entrar na escola. Aliás, nem escola aquilo é. Vi e ouvi coisas nojentas ali. Havia um aluno idoso que pagava cursos de inglês para muita gente. E ele adorava se engraçar para cima de todo mundo. De mim inclusive. E você tem de ouvir "Ignora, ele paga o curso para muita gente, não podemos perdê-lo. E se ele te agarrar, nem vai funcionar, certeza, hahahahaha". Sim, fui obrigada a ouvir gracinhas e grosserias de tal pessoa porque ela poderia sair da escola. Aham. Pode deixar. E fora as outras mentirinhas: "Se a diretoria de ensino te perguntar, você diz que está indo na casa do fulano dar aula para ele". Claro, com certeza. Fiquei com raiva de mim mesma por ter aceito essas porcarias.
Vejo que muitos dos erros que cometi em minha vida foram nessa época.
Não guardo boas lembranças de lá.
A última foi quando a patroa me prometeu um aumento de cinco reais na hora/aula. Gente? E lembro que fiquei feliz. Mas durou pouco a alegria porque foi só eu dizer que ia estudar aos sábados e a proposta foi cortada. Bruscamente.
Sei que a culpa foi minha em grande parte. Hoje mudei minha postura. Se comecei a perceber que o emprego não agrada, pro qualquer motivo, eu caio fora. Sem dó. nem que seja porque não gosto da altura da grama do jardim.
Posso dizer que estou feliz onde trabalho agora: aprecio a postura profissional deles, acredito na abordagem de ensino, além de termos uma boa estrutura à disposição e a maior hora/aula da região de presente. Mas ainda quero trabalhar em uma escola pública. Minha amiga me disse algo e traduziu o que penso: "trabalho é trabalho, vida é vida." Não deixemos o trabalho nos consumir, meus amigos. Clichê? Com certeza. Mas um clichê que ainda judia de muita gente.
Amei, me identifiquei. Também já passei por algo assim. No primeiro ano de faculdade estagiei em um escritório de Engenharia, com a promessa de que aprenderia muito. Ganhava uns R$350, por aí. Apesar de ser estágio trabalhava 8h por dia. Até aí tudo bem, um dia não estagiaria mais e teria essa jornada mesmo, mas o que mais me revolto hoje por ter aturado era a "obrigação" que eu tinha de faxinar TODO o escritório no sábado, das 9h as 12h, de lavar banheiro, lavar cozinha, porque era eu quem usava durante a semana. É, a gente e esse estupido pensamento de que trabalhar dignifica. E dignifica mesmo, a nós, mas enriquece outros!
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