Lady Chatterley

Livro: Lady Chatterley.



Há uns dois anos mais ou menos, o mundo estava vivenciando o fenômeno provocado pela trilogia “50 tons de cinza”. Lembro-me de ter ido até uma livraria e a mesma estava tomada por edições da série, atendentes iam e vinham buscar algum exemplar, pessoas saíam com os boxes a cada segundo. Ali eu vi de perto como funcionam essas histórias de “fenômenos” e foi divertido. Li apenas o primeiro livro e gostei. Mas apenas isso. O BDSM é um assunto complicado creio eu, então não entro em discussões, também por não saber muita coisa a respeito. Apenas li e gostei, sem fanatismo.
E eis que cai em minhas mãos o Livro “O Amante de Lady Chatterley”, escrito por D.H Lawrence. Acabei de lê-lo e um paralelo com 50 tons se fez construiu automaticamente para mim.
Comecemos por dizer que os dois têm de pano de fundo o “assunto proibido”: sexo. Mas eu vi uma grande diferença entre na abordagem dada por eles ao tema.

No Bestseller de Erika Leonard James, Anastasia é uma garota virgem e inocente que se envolve com o empresário milionário Christian Gray. Este, por sua vez, é um adepto do BDSM. No romance de D.H. Lawrence, Constance é uma mulher com um perfil interessantíssimo, questionamentos filosóficos povoam sua mente, temperamento forte e que se vê presa em um casamento frustrado com Sir Clifford, o qual ficou inválido depois da guerra. Costumo prestar atenção em nomes de personagens e nesse romance pude ver que o nome CLifford tem a palavra Cliff (penhasco em inglês) e ford, e a partir dela pude ver talvez escondida a palavra forth, que guarda a ideia de futuro, algo que vai acontecer mais para a frente, indicando o desastre que aquele casamento representa para a moça. Há no decorrer do livro seu envolvimento amoroso com o guarda-caça Mellors, personagem que não em inspirou muita simpatia no começo para ser sincera, mas é aí a graça do livro talvez: na vida real, não nos envolvemos com Christian Grays, olhos azuis, ricos que te dão jatinhos de presente: nós nos envolvemos com homens e mulheres que podem ser vistos como estranhos, antipáticos, até mesmo esnobes, malucos, etc. É muito fácil se envolver com o milionário. E foi nessa parte que vi que a obra de E.L. James é um resgaste do bom-mocismo: Ana, a donzela virgem nas mãos do “monstro” ( a velha ideia do “Corra, porque comigo você está em perigo...”) e já com as personagens de D.H. Lawrence, Constance troca seu título de Lady para fugir com alguém de um nível mais baixo que o seu. Mas sem drama, sem choradeira, sem barulho.

A leitura é agradável, delicada, não constitui um repertório de palavras pesadas como li com relação às descrições das cenas de sexo entre Constance e Mellors. Muito me surpreendeu o texto, aliás, porque o autor usou os nomes de fato como “pênis”, “pelo”, “seio”, “vagina” de um jeito tão natural que imagino o que foi para a época tal livro ter sido lançado. Isso torna o sexo natural, sem alarde.

Passando para a análise do drama interno de Constance, nos vemos diante de uma situação de conflito extremo: se sacrificar para cuidar de alguém que em tese necessita dela absolutamente ( Clifford) ou assumir a responsabilidade de fugir. Uma das partes mais marcantes da leitura é já no começo da história, com a descrição da depressão vivida por Constance: o leitor vivencia sua existência deprimente, trancada no castelo e sem emoção.

Outro momento interessante do texto constitui a passagem de amor para ódio vivido por Constance com relação ao marido. De início, ainda há o comprometimento e certa afeição dela para com o mesmo. Mas depois que o Sir assume uma atitude elitista em seu discurso, pondo-se no altar do “Senhor melhor que a plebe” (incluindo aqui o contexto da exploração de minas de carvão) desperta o desprezo e a cólera da esposa. Essa é a desculpa que ela procurava inconscientemente para abandoná-lo e ter um amante. Fascinante, pois é o caminho tomado por muitos diante de uma situação que exige decisão: esperar que o outro assuma uma postura qualquer para que a culpa seja dele e assim se isentar.

Um livro recomendável, merecidamente clássico. E para aqueles que se chocam com o tema, deixo a máxima que li, engraçada mas que faz certo sentido: “Quem se choca com Cinquenta Tons é porque pulou O Cortiço no ensino Médio.”

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